sexta-feira, 4 de março de 2011

Dicionário de Filosofia

Autopoiesis

É a estrutura de um sistema vivo. Refere-se à capacidade em transformar e integrar componentes e processos desencadeados por perturbações internas ou externas. Encontra-se subordinada à organização, mas esta, por seu lado, só pode auto-manter-se devido aos elementos complexificadores aportados pela estrutura. Segundo Maturana é a crença de que somos animais racionais que nos leva a enaltecer a racionalidade em detrimento das emoções e, esse processo faz que nossa noção de realidade seja independente do que realizamos no mundo. Em resumo é a teoria biológica, dos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela de bastante repercussão na epistemologia e nas áreas do saber humano, qual fundamenta que a invariante que se mantém nos processos de adaptação ontogenéticos, e que nos permite identificar um organismo como uma unidade é a autopoiesis desse ser vivo. Auto enquanto referenciado a si próprio; poiesis, de produção (poiein).

Axiologia

É a abordagem filosófica Teoria do valor em sentido amplo. Sua importância reside principalmente no novo e mais extenso significado que atribuiu ao termo valor e na unidade que trouxe ao estudo de questões econômicas, éticas, estéticas e lógicas que eram tradicionalmente consideradas em separado.

Categoria

Categoria é a classe de atributos que dizem respeito a um sujeito determinado. As categorias são gêneros, pelos quais se distribuem todos os seres ou realidades do mundo criado. Observadas de outro ângulo, as categorias são os diferentes pontos de vista a partir dos quais os seres se oferecem à investigação, e assim determinam os caminhos por meio dos quais é possível conhecê-los. As categorias significam, portanto, as diferentes maneiras de expressão do ser, ou as diferentes maneiras de ser.

Conceito

É um idéia ou verbo mental que se expressa daquilo que se aprende do objeto e se dá quando ao conceber o pensamento nos referimos intelectualmente através de um sinal imaterial. Os empiristas pensam os conceitos como o resultado de um processo de abstração a partir da experiência.

Conhecimento

O conhecimento humano é a verdade acessível ao homem, e esta verdade é relativa, finita e limitada. Existe uma realidade absoluta, mas acesso direto a esta realidade ou percepção direta dela é impossível. O conhecimento da realidade é relativo e limitado ao conhecimento dos vários efeitos produzidos por esta realidade absoluta. É um termo que designa, em filosofia, o processo pelo qual o sujeito apreende um objeto. O conhecimento sensível nos é dado por meio dos sentidos já o inteligível depende do uso da razão e tem como objeto tipos gerais, e não individuais e concretos.

Dicionário

Se a etimologia da palavra dicionário (do Latim Dictionariu) a remete a um conjunto dos vocábulos dos termos próprios de uma ciência ou arte, dispostos por ordem alfabética e com a respectiva significação ou a sua versão noutra língua. Então no nosso caso, aqui, a usaremos como num léxico (do Grego Léxicon), isto é, como um dicionário de línguas clássicas antigas, abreviado num conjunto dos vocábulos, usados no domínio especializado da filosofia.

Dicionário de Filosofia

Abbagnano, Nicola (1901-1990)

Filósofo italiano. Influenciada pelo pensamento de Kant, suas obras, "O existencialismo positivo (1948)" e "História da filosofia (1949-1953)", tem por tema principal o significado da existência.


Abelardo

Teólogo e filósofo defendeu o exame crítico das Escrituras à luz da razão por acreditar na capacidade da mente humana de alcançar o verdadeiro conhecimento natural. Estudou em Paris e foi professor da catedral de Paris (Notre Dame), a clareza do seu espírito atraiu uma multidão de discípulos. É conhecido, popularmente por sua ligação amorosa com Heloísa, sobrinha do cônego Fulbert, tornando-se famosa a correspondência que trocaram, pois refletem o temperamento a um só tempo espiritual de Abelardo. Seu livro mais famoso, Sic et non (Sim e não) foi escrito em 1121-1122. Nele apresenta argumentos contra e a favor de quase todas as grandes teses filosóficas da época, método que santo Tomás de Aquino retomaria na Suma teológica. Abelardo chama esse jogo lógico de "dialética" e o acha importante para aguçar o espírito. Sua filosofia é em grande parte uma análise da linguagem, que se torna notável ao estudar o problema dos "universais".


Absoluto

Com uma abordagem idealista ou materialista, a noção de absoluto é tentada pelas mais diversas correntes do pensamento filosófico, desde os pré-socráticos, com seu princípio monista, até Schopenhauer, com o conceito de vontade cega, passando pela idéia de substância, formulada por Spinoza, e pelo materialismo dialético, próprio da filosofia marxista. Assim o conceito de absoluto e sua relação com a realidade sensível é um dos problemas fundamentais na história da filosofia. Segundo Aristóteles, do ponto de vista metafísico, o absoluto é, "o que existe e subsiste em si e por si", ou seja, o motor imóvel, causa de todas as causas, que, como fundamento último da realidade, não é afetado por suas leis. O absoluto, assim concebido como pura transcendência, não pode ser definido positivamente. Pode-se dizer que o absoluto não tem causas, pois se as tivesse dependeria de outra coisa; não tem forma, pois seria determinado por ela; e que nada existe fora dele, pois nesse caso não seria absoluto. Essa concepção de absoluto se encontra nos fundamentos do pensamento medieval e, mais especificamente, na teologia negativa, que identifica o absoluto com Deus, de quem só se pode saber o que não é e não o que é. Nicolau de Cusa afirma que "o conhecimento da verdade absoluta transcende nosso entendimento finito" e que "Deus se entende incompreensivelmente". A concepção de absoluto como entidade substantiva diferente de Deus aparece no idealismo alemão, como o fundamento último da razão e esta, da realidade. Kant afirma que o fundamento último da razão tem que ser absolutamente incondicionado. Fichte leva a idéia de absoluto ao extremo subjetivismo, identificando-o com o eu universal. Friedrich Schelling entende o absoluto como fundamento universal da realidade, que contém em si mesmo seu princípio espiritual. A unidade entre sujeito e objeto proposta por Schelling é à base da crítica hegeliana a sua concepção de absoluto e para tentar resolver o problema das concepções metafísicas sobre o absoluto em sua relação com o intelecto, concebe a razão humana como uma espécie de outra razão superior, a do espírito absoluto, que se realiza a si mesmo no tempo, mediante um processo dialético, de natureza lógica, que é também histórico. É o próprio espírito absoluto que pensa a si mesmo e faz culminar o processo com a consciência absoluta de si mesmo. Na filosofia moderna, a noção de absoluto confunde-se com a de totalidade e de fundamento do real, seja ela concebida de um ponto de vista idealista ou materialista. A reflexão sobre o absoluto tem constituído a tarefa básica de todas as filosofias, seja para tomá-lo como postulado ou, como acontece na analítica contemporânea, para afirmar a impossibilidade de emitir juízo algum sobre ele.


Abstração

É uma operação intelectual pela qual o espírito separa mentalmente coisas, de fato inseparáveis. Uma das muitas atividades da mente, por meio da qual se faz com que determinadas idéias representem todos os objetos da mesma espécie.


Abstrato

Diz-se de toda noção que resulta de uma abstração como, por exemplo: Se um termo se refere a algo abstrato daquilo que é referido é porque não tem existência espaço-temporal, isto é, o contrário de concreto, qual Berkeley considera, não existe num lugar qualquer nem num determinado momento, sendo o que está intimamente ligado diretamente ao conceito. Na Filosofia Clínica o termo abstrato tem dimensões além daquelas tratadas nas idéias particulares, em Locke universalizadas. Segundo, o filósofo, Lúcio Packter, o termo abstrato é o que está indiretamente relacionado aos sentidos, e diretamente ligado a conceitos, como, por exemplo, entendemos que um aroma é diferente de outro por suas naturezas distintas.


Absurdo

No passado mais remoto, a noção do absurdo esteve latente nas filosofias irracionalistas ou nas que se recusavam a encontrar uma explicação racional para a existência. Paralelamente a essas filosofias, tal noção encontrava-se também subjacente em muitas expressões artísticas, sobretudo nas manifestações do fantástico, da literatura dos sonhos, do humor como conceitos afins ao de absurdo no sentido moderno, mas distintos porque o absurdo teria sempre um sentido, embora inexplicável e recôndito; o fantástico se situaria numa fronteira indefinida entre a realidade e a irrealidade, ou seria um modo peculiar de ver a existência, por meio de fantasias individuais, enquanto o sentimento do absurdo estaria ligado ao real em si mesmo, independentemente das projeções subjetivas. Já o humor negro se caracterizaria como expressão essencialmente gratuita, não comprometida com a busca de significações para o real. A noção do absurdo da existência é convertida em núcleo básico de importantes expressões filosóficas e artísticas do século XX como Søren Kierkegaard, Miguel de Unamuno e outros. A afinidade com o absurdo se evidencia em autores do século XX que utilizaram o fantástico como elemento de uma nova indagação sobre a existência. Mesmo o humor negro, caracteriza-se pela gratuidade em autores de um passado recente (os surrealistas, por exemplo), revelou-se carregado de novas conotações nas obras de Kafka ou Beckett. Os existencialistas rejeitaram as hipóteses metafísicas e teológicas para a explicação da existência. Em seu lugar, introduziram a noção do fracasso ontológico do homem, cuja vida seria uma "paixão inútil" (Sartre) e procuram uma saída para o dilema da condição humana, propondo a escolha lúcida do próprio destino (Sartre) ou a revolta (Camus). Esta saída foi negada pelos representantes do teatro do absurdo (Samuel Beckett, Eugène Ionesco), que não admitem sequer a possibilidade de explicação para o real, proclamando a impotência dos atos humanos. Neles, ao contrário dos existencialistas, de expressão quase sempre realista, o absurdo emerge funcionalmente na própria representação cênica, com a mímica grotesca, o humor negro e as expressões parabólicas. O grande marco do absurdo moderno são os romances e contos de Kafka quando não apontam saídas e a ação dos personagens parece desprovida de significação estando condicionada a potências imprevisíveis e invisíveis. Seus personagens ignoram os crimes de que são acusados e suas tentativas de defesa revelam-se grotescas e destinadas ao fracasso. A tese do absurdo existencial foi explicitada por Albert Camus "O mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo" (1942), onde o personagem mitológico Sísifo, rolando montanha acima uma pedra que sempre volta a cair, encarna a inutilidade do esforço humano. Ao lado da expressão filosófica, a obra ficcional e dramática de Jean-Paul Sartre e Camus revelaria também, por meio de situações típicas, a problematização do absurdo. As mais características, nesse sentido, seriam "O muro" (1939), contos de Sartre em que os personagens decidem sobre seus destinos contra as leis da razão social; e Calígula (1944) e a Peste (1947), drama e romance de Camus em que os personagens se rebelam contra a própria condição humana, reduzida a sua impotência individual ou coletiva.


Academia

Escola filosófica fundada por Platão em 387 a.C., nos jardins consagrados ao herói ateniense Academos. Fechada no ano 529 por ordem do imperador romano Justiniano.


Acidente

Designação genérica de diversas circunstâncias ou qualidades que podem determinar uma substância, sem constituir, contudo um de seus elementos essenciais.


Adorno, Theodor

Filósofo e crítico musical, foi uma das figuras que mais contribuíram para denunciar a mercantilização que atinge a arte contemporânea. Foi professor na Escola de Frankfurt, constituiu o núcleo de uma linha original de pensamento filosófico-político desenvolvido por Walter Benjamim, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Jürgen Habermas e Adorno. A teoria crítica proposta por esses pensadores se opõe à teoria tradicional, que se pretende neutra quanto às relações sociais. Ela toma a própria sociedade como objeto e rejeita a idéia de produção cultural independente da ordem social em vigor. Adorno regressou à Alemanha em 1949, retomou a atividade docente e participou intensamente da vida política e cultural do país. Antes de sua morte em Visp, Suíça, em 6 de agosto de 1969, teve destacada e polêmica participação nos movimentos estudantis que sacudiram a Europa a partir de maio de 1968. Fundamentado na dialética de Hegel, Adorno imprimiu um conteúdo sociológico a seus escritos filosóficos e musicais. O jazz, a música, o teatro engajado e a literatura realista foram alguns dos objetos de reflexão escolhidos por Adorno para denunciar a mercantilização que atinge a arte contemporânea. O conceito de "indústria cultural" foi criado por Adorno para designar a exploração sistemática e programada dos bens culturais com finalidade de lucro. A obra de arte produzida e consumida segundo os critérios da sociedade capitalista se rebaixa ao nível de mercadoria e perde sua potencialidade de crítica e contestação. Produziu algumas das obras capitais do pensamento estético, como a "Dialética do esclarecimento" (1947), em colaboração com Horkheimer, a "Filosofia da nova música" (1949) e a inacabada "Teoria estética" (1970), na qual trabalhou até a morte.


Agnosticismo

Agnosticismo é aquilo que limita o conhecimento ao âmbito puramente racional e científico, negando esse caráter à especulação metafísica. Filosóficamente é interpretado, em sentido estrito, como um posicionamento diante das questões religiosas que sustenta ser impossível demonstrar tanto a existência quanto a inexistência de Deus. Os pensadores dogmáticos que postulam um caminho místico ou irracional de abordagem do absoluto, mantem a mesma posição do sentido estrito, mas negam que se possa chegar a conhecer alguma coisa a respeito do modo de ser divino. Em essência, ele emanaria de uma fonte racionalista, ou seja, de uma atitude intelectual que considera a razão como o único meio de conhecimento suficiente e o único aplicável, pois só o conhecimento proporcionado pela razão satisfaria as exigências de uma ciência rigorosa. Não nega, nem afirma a possível existência de seres espirituais, transcendentes ou não visíveis, e sim deixa em suspenso o juízo, abstém-se de pronunciar-se sobre sua existência e realidade, atuando de acordo com essa atitude. Nessa ordem de coisas, ainda que admita a possível existência de um ser supremo, ordenador do universo, sustenta que, científica e racionalmente, o homem não pode conhecer nada sobre a existência e a essência de tal ser, pois o agnosticismo circunscreve o conhecimento humano aos fenômenos materiais, e rejeita qualquer tipo de saber que se ocupe de seres espirituais, transcendentes ou não visíveis. Thomas H. Huxley criou o termo "agnosticismo" para ser uma antítese ao "gnóstico" da história da igreja. Uma atitude filosófica que nega a possibilidade de dar solução às questões que não podem ser tratadas de uma perspectiva científica, especialmente as de índole metafísica e religiosa. Essa definição de Huxley possibilitou diferentes concepções do agnosticismo ao longo da história. No âmbito filosófico, o empirismo, de David Hume, negou a possibilidade de se estabelecer leis universais válidas a partir dos conteúdos da experiência. O idealismo transcendental, de Kant, afirmou que o intelecto não pode conhecer a coisa-em-si, isto é, a essência real da coisa. O positivismo lógico, do século passado, estabelece que as proposições metafísicas não têm significado e, por isso, não é possível demonstrá-las. No âmbito religioso, o agnosticismo não nega nem afirma a existência de Deus, mas considera que não se pode chegar a uma demonstração racional dela; essa seria, em essência, a tese de Hume e de Kant, muito embora este considerasse possível demonstrar a existência de Deus como fundamento da moralidade.

História da Filosofia


Nicolas Malebranche (1638 - 1715)
Malebranche divide de forma definitiva a alma do corpo, aprofundando mais ainda o processo iniciado por Descartes. A alma não sente, a alma simplesmente pensa e quer. O corpo é somente extensão, e nada além disso. As ações da alma não provocam nenhum resultado sobre o corpo e este não atua de nenhum modo sobre a alma. Corpo e alma não desenvolvem nenhuma ação recíproca. A alma está separada tanto de outras almas como do mundo físico. A alma está isolada e somente conhece as coisas através da sua relação com Deus.
Nossa alma não entra em relação com os objetos, ela somente tem ideias deles. Todas as coisas que pensamos sentir são somente ideias das coisas que acreditamos estar sentindo. Nosso conhecimento não vem dos sentidos, mas de Deus, é em Deus que conhecemos todas as coisas. Todas as ideias e conceitos estão na mente de Deus, e é lá que nossa alma busca suas ideias e conceitos.
Nicolas com isso não quer dizer que nós conhecemos Deus, mas somente que o que conhecemos vem de Deus. A mente de Deus, a razão universal do criador é que ilumina a alma e todas as inteligências existentes, é na mente divina que estão as verdadeiras ideias, e é lá que nós buscamos as nossas ideias.
É Deus que produz em nossa alma as modificações e sensações que são produzidas em nosso corpo. É Deus que revela para a alma o que acontece fora dela. Deus imprime na alma as sensações que atingem nosso corpo.
Para Malebranche a existência de Deus é tão certa como a preposição "penso, logo existo". Deus é infinito e contém tudo em si, ele é imenso, e sua imensidão vai infinitamente além do universo.
Acredita ainda que a razão não falha, não muda e não se corrompe e portanto é preferível à fé. A razão não pode ter restrições porque Deus é a razão universal. É a fé que conduz a inteligência, mas a fé sem a inteligência não faz com que sejamos virtuosos, pois não nos guia no caminho da verdade.
Sentenças:
- Mesmo o mal quer o nosso bem.
- O espírito do mal se revela através da imaginação.
- O preconceito ocupa parte do espírito e afeto todo o resto.
- O que você admira em Deus se não sabe nada sobre ele?

História da Filosofia


Francis Bacon (1561 - 1626)
Bacon é considerado o pai do empirismo moderno por ter formulado os fundamentos dos métodos de análise e pesquisa da ciência moderna. Para ele a verdadeira ciência é a ciência das causas e seu método é conhecido como racionalista experimental. Afirma que "O empírico se assemelham à formiga, pois se preocupa em acumular e depois comer a sua comida. O dogmático é como a aranha que tece sua teia com material extraído de si mesmo, da sua própria substância. A abelha faz o melhor caminho, pois tira a matéria das flores do campo e então por uma arte própria, trabalha e digere essa matéria".
Podemos olhar a natureza de duas formas: primeiro através da antecipação, onde se dispensa o experimento e através de algumas sensações formulam-se máximas que não exigem provas para serem consideradas verdadeiras. A segunda forma é através da interpretação, que utiliza um método que ordena as experiências e sobe, de forma organizada dos experimentos específicos às verdades gerais. Cada etapa desse processo tem que ser experimentalmente comprovada. A pesquisa por antecipação não gera frutos, mas a pesquisa por interpretação é criativa e imaginativa e produz novidades abundantes e de boa qualidade.
Sua reflexão filosófica busca um método para o conhecimento da natureza que possa ser definido como científico e que possa ser repetido. Para ele esse método é o indutivo, mas não na forma entendida por Aristóteles como a enumeração simples da observação de diversos casos e da criação de uma regra geral com base nesses casos. Para Aristóteles, por exemplo, se forem observadas diversas araras e todas elas forem vermelhas, podemos chegar à conclusão por indução de que todas as araras são vermelhas. Para Bacon a coleta simples de informações como as das araras podem nos levar ao erro, pois a informação seguinte pode ser o conhecimento de uma arara azul.
A solução para prevenir essas falsas conclusões é a criação de uma metodologia que exclua os caracteres não essenciais dos fenômenos observados. A indução deve nos levar ao conhecimento da lei que rege esses fenômenos, deve descobrir a natureza, a causa e a essência do que está sendo estudado. Bacon busca a origem do fenômeno, sua constituição, estrutura e desenvolvimento. As explicações dos fenômenos estão contidas também nos aspectos qualitativos e não somente nos quantitativos. Esse método é, de forma geral, o que os biólogos usam para estudar as araras hoje, por exemplo.
Bacon critica duramente muitos filósofos anteriores a ele a quem considera estéreis por suas filosofias não se preocuparem em resolver problemas práticos da vida das pessoas. A filosofia tem o objetivo de oferecer instrumentos para melhorar a vida dos homens e fazer com que ele tenha mais poder sobre a natureza. O conhecimento é algo prático e quanto mais conhecimento tivermos mais poderosos seremos. A ciência tem que ser funcional e produzir efeitos na vida dos homens. Para ele os filósofos do passado fizeram uma filosofia de palavras e o que os homens precisam é uma filosofia de obras.
Francis se preocupa também em identificar as formas mais comuns de pensamentos que podem nos levar a falsas verdades, que ele chama de ídolos. Os ídolos da tribo são os enganos criados pelo nosso próprio intelecto que através de observações fáceis e parciais pode chegar a conclusões falsas, como aconteceu durante muito tempo nas observações que os homens fizeram do universo e acreditaram que o sol girava em torno da terra. Os ídolos da caverna dependem de cada indivíduo, pois cada um de nós tem uma caverna, um lugar profundo onde guarda verdades que independem da comprovação, são certezas das quais não abrimos mão mesmo diante de provas concretas. Os ídolos da caverna, ou os pré-juízos, podem nos levar ao erro por não aceitarmos a existência de outras verdades e de outras realidades além dessa nossa verdade íntima e profunda. A terceira forma de ídolo é a da praça, ou do foro, que podem nos levar ao erro por diferenças de interpretação do que nos falam e do que falamos aos outros. As palavras são o fio condutor que podem nos levar a esse ídolo, as palavras podem fugir da nossa interpretação e criar vida e sentido próprio e nos levar ao erro. O quarto e último ídolo é o do teatro e podem chegar até nós através de doutrinas filosóficas que não foram suficientemente demonstradas.
Sentenças:
- Obedecer a natureza é comandá-la.
- Quem não usa novos remédios vai ter novas doenças.
- É melhor não ter uma opinião sobre Deus do que ter uma má opinião sobre ele.
- A verdade é filha do tempo.
- No teatro humano Deus é o espectador.
- Pouca filosofia gera o ateísmo, muita filosofia nos leva à fé.
- O homem pode tanto quanto sabe.
- A natureza humana é mais estúpida do que sábia.
- A esperança é um bom café da manhã, mas uma péssima janta.
- O dinheiro é bom servo, mas mau patrão.
- Na caridade não existe excessos.
- É triste ter poucos desejos e muitos temores.
- A natureza algumas vezes está escondida, outras dominada, mas raramente extinta.
- As ocasiões tem que ser criadas e não esperadas.
- Suspeita muito quem sabe pouco.
- A amizade duplica as alegrias e divide as angústias.
- Velha madeira para queimar, velho vinho para beber, velhos amigos para confiar e velhos livros para ler.
- O fanático não quer o idiota não pode e o covarde não ousa pensar.
- As maiores obras nasceram de homens sem filhos.
- A vingança é uma justiça selvagem.
- O silêncio é a virtude do imbecil.

História da Filosofia


René Descartes (1596 - 1650)
Descartes visualizou a filosofia como uma árvore onde a metafísica são as raízes, a física é o tronco e as outras ciências são os galhos. Percebia desta forma o conhecimento como uma unidade, todos os saberes estão interligados. A filosofia é também algo útil na vida cotidiana das pessoas, a árvore filosófica dá frutos que são colhidos através das ciências práticas representadas pelos galhos. O principal objetivo da filosofia não é a teorização abstrata, ela tem que ser útil para a vida, ela serve para tornar os homens senhores da natureza. A filosofia deve ser um instrumento para melhorar a vida dos homens. Basta pensar corretamente para agir corretamente.

Ele busca um ponto de partida sobre o qual possa fundar sua filosofia, busca uma verdade que não possa ser questionada como tal, um princípio que possa lhe dar uma certeza inquestionável. Assim pensando ele cria a dúvida metódica, a partir do qual ele duvida de tudo, inclusive da própria existência e de todas as percepções dos seus sentidos. Todas as minhas sensações podem estar me enganando, como me engano quando sonho e acredito que o sonho é realidade.

Até as verdades matemáticas podem nos enganar, pois podem ser ilusões criadas por um demônio, com o objetivo de me levar ao erro no agir, falar ou pensar.

E é justamente no grau máximo da dúvida que Descartes encontra a sua primeira verdade inquestionável, enquanto duvido de tudo não posso duvidar que esteja duvidando, eu sou algo que duvida, sou algo que pensa na dúvida, sou algo que existe por pensar, se penso, logo existo.

Na sequência o filósofo busca fundamentar outras verdades através da verdade da existência por pensar. Nosso pensamento é imperfeito, mas somente pode ter sido criado por um ser perfeito que é Deus. Deus sendo perfeito não pode querer nos enganar em relação às nossas sensações e se as nossas sensações também são verdadeiras, o mundo exterior existe e é conforme nós o sentimos e intuímos.

Descartes cria um método para bem conduzir nossos pensamentos. Para alcançar a verdade devemos seguir os seguintes princípios: Princípio da evidência, não admitir algo como verdadeiro se não tivermos evidências suficientes para considerar como tal. Princípio da análise, dividir os problemas em tantas partes quanto forem possíveis para que melhor possam ser resolvidos. Princípio da síntese, estabelecer uma ordem de relação entre nossos pensamentos, solucionando primeiro as questões mais simples e depois as mais complexas. E o princípio de controle, fazer constantes revisões de todo processo para ter certeza de que nada foi omitido.

São também verdades nossas ideias inatas, como as matemáticas, pois nos foram dadas por Deus. E é no método matemático que ele vai fundamentar a ciência para conhecer e modificar o mundo. O mundo é uma variação de formas, tamanhos e movimentos da matéria e essas variações podem ser quantificadas e entendidas pela matemática através também da geometria.

Descartes divide matéria de pensamento, para ele o pensamento, ou a substância pensante independe e é separada da matéria. A nossa consciência individual é separada do corpo e continua a existir mesmo sem o corpo. Nós somos um marinheiro navegando no mundo através do nosso corpo que é o navio, mas estamos ligados ao corpo de uma forma estreita, formando um todo com ele. A relação entre nossa consciência e nosso corpo se dá através da glândula pineal, que é a sede da nossa alma. Corpo a alma assim se misturam, mas não ao ponto que não seja possível distinguir uma da outra. Nesta relação podemos diferenciar algumas operações que pertencem somente ao corpo e outras que são específicas da alma. A alma busca o conhecimento da verdade, o corpo é responsável pelas sensações.

Sentenças:

- Penso, logo existo.

- O bom senso é a coisa mais bem dividida no mundo: todos pensam ter em abundância.

- Além do nosso pensamento, nada está realmente sobre nosso controle.

- Conquiste você mesmo, não o mundo.

- A dúvida é a origem da sabedoria

- Nada vem do nada.

- As melhores mentes podem ter as maiores virtudes ou os maiores vícios.

René Descartes

História da Filosofia


Nicolau de Cusa (1401 - 1464)

Para alcançarmos a verdade de alguma coisa o caminho mais utilizado é relacionarmos algo que temos por verdadeiro com algo que temos incerto de ser verdadeiro. Esse método funciona para as coisas finitas que podem ser de fácil ou difícil entendimento. Mesmo se alguma coisa finita é de difícil compreensão, é possível conhecê-la, ainda que não no presente, mas no futuro. O mesmo não acontece com algo que for infinito, pois do infinito não temos com fazermos relações, não temos como conhecer a sua dimensão. Não pode haver simetria entre o finito e o infinito. A mente humana é finita e ignora o conhecimento do infinito. Reconhecer essa incapacidade é a Douta Ignorância, uma das principais teorias filosóficas de Nicolau de Cusa.

Mesmo que a mente finita não possa conhecer o infinito, ela deseja ardentemente alcançar a compreensão do sem fim, do eterno. Nicolau compara o finito com um polígono e o infinito com um círculo perfeito, por mais lados que tenha o polígono ele será sempre um polígono e nunca um círculo. Nós podemos nos aproximar das verdades infinitas e eternas, mas nunca vamos alcançá-las.

Saber que não podemos conhecer Deus é por onde começamos a conhecê-lo. A douta ignorância não fundamenta somente o conhecimento de Deus eterno e do infinito, fundamenta também todo o restante que o homem pode conhecer. Reconhecer os limites do nosso conhecimento é o ponto de partida para o nosso conhecimento da verdade.

A mente humana é semelhante à mente divina. A mente humana através do se reconhecer limitada pode descobrir a verdadeira face de Deus. Se olharmos Deus com amor veremos que ele nos olha amorosamente, se olharmos Deus com ira veremos que ele também nos olha irado, se olharmos alegremente para Deus ele também nos mostrará seu rosto alegre. A nossa mente é uma lente que dá cor para as coisas que observamos.

Sentenças:

- O homem é um mundo perfeito e é parte de um grande mundo.

- Tudo quanto é, é porque pode ser o que é.

- Seja você e eu serei teu.

- Deus está em toda a parte e em nenhum lugar.

- A razão é a voz da inteligência e nela se espelha como uma imagem.



Nicolau de Cusa